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"A paz interna é a base mais sólida para a paz mundial" T.Y.S. Lama Gangchen

A ARTE DA EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL PARA VIVER MELHOR – UMA SOLUÇÃO PARA CRIAR PAZ INTERNA E EXTERNA NAS CIDADES DE AMANHÃ

por T.Y.S. Lama Gangchen Rinpoche em ocasião da Conferência do Habitat II - Istambul, Turquia, junho de 1996


Estou feliz por estar aqui e partilhar do Fórum de Solidariedade Humana, Fórum da ONG Wisdom Keepers, Conferência do Temple of Understanding e Cerimônias das Bandeiras e Rezas de Paz. Estou feliz, pois durante a Conferência Habitat II foi dado espaço a vários representantes de diversas tradições espirituais, além dos representantes da ONU e ONG’s . Espero que possamos, juntos, encontrar novas soluções ao sintetizar muitos pontos de vista nos aspectos econômicos, ambientais, sociais, políticos e espirituais para a resolução dos problemas urbanos. Estas soluções podem ajudar a transformar nossas cidades em melhores lugares para se viver, tanto agora como para as gerações do terceiro milênio. Como humilde lama curador e filósofo budista do Himalaia eu gostaria, se possível, de partilhar minha opinião com vocês. Nosso Secretário-Geral Boutros-Ghali disse : “Se o mundo falhar no combate às consequências da urbanização e o crescimento urbano continuar sem planejamento, o resultado será catastrófico. Ameaças à paz, que no passado se originavam basicamente de agressão militar e estados ambiciosos virão agora principalmente de comunidades deslocadas e indivíduos alienados pela urbanização descontrolada”. Em resposta a isto penso que uma das coisas mais importantes que precisamos fazer, para transformar as cidades do mundo em melhores lugares para se viver, é educar as gerações presente e futura para a paz interna e mundial através tanto da educação formal como não-formal.

Desde o surgimento das Nações Unidas em 1946 seu principal objetivo tem sido criar e manter a paz mundial. Podemos dizer que promover e manter a paz têm sido suas funções principais. Todas as agências e programas estão direta ou indiretamente trabalhando para este objetivo, no esforço para remover os obstáculos sociais, médicos, legais, econômicos, ambientais e culturais para a paz mundial, tais como a pobreza, superpopulação, analfabetismo, injustiça e outros. Podemos encarar a presente Conferência Habitat II desta forma - uma forma de encontrar novas soluções aos urgentes problemas urbanos que nos impedem de encontrar a paz social. Como Wally N’Dow, o secretário coordenador desta conferência disse : “Se as cidades não funcionassem não teríamos uma economia global. Se a capital não funciona o país entra em colapso. Quando as cidades não funcionam o crime e a anarquia disseminam.” Esta falta de paz social pode levar tanto a conflitos locais como internacionais sobre questões tais que a degeneração dos recursos naturais, rápido crescimento da população urbana e um declínio geral no padrão de vida. Penso que esta conferência é uma oportunidade maravilhosa de conceder a cada cidadão do mundo o direito à habitação adequada, assim como complementar conferências anteriores das Nações Unidas como Rio Earth Summit, Beijing Women’s Summit e Cairo Population Summit. É uma oportunidade tanto para as organizações das Nações Unidas como para mais de 10.000 organizações não governamentais, sindicatos, parlamentaristas, organizações femininas, empresários, acadêmicos, organizações profissionais e 2.000 prefeitos se juntarem no que se pode chamar “supermercado dos bons pensamentos”. É grande proeza ter todas estas organizações reunidas aqui em Istambul, com o objetivo comum de contribuir com suas boas idéias, mensagens e imagens, oferecendo soluções aos problemas enfrentados pelas comunidades globais à medida que nos aproximamos do terceiro milênio.

Diante de tantas pessoas e organizações importantes reunidas aqui para oferecer suas soluções sinto que só posso apresentar uma pequena contribuição. Eu pessoalmente gosto de enfatizar a importância  e sugerir a enorme necessidade de desenvolver a Educação Não-Formal ao lado de nossos sistemas normais de educação em nossos respectivos países. Penso que a educação formal é maravilhosa e, com certeza, precisamos continuar a desenvolvê-la. Eu aplaudo os esforços de organizações como a UNESCO e a UNICEF que trabalham para atingir padrões básicos de educação para todos, assim como utilizam a educação para promover os direitos humanos, a democracia, melhorar a situação das mulheres, combater a discriminação e realizar projetos de prevenção contra a AIDS, entre tantos outros.

Pode parecer que não há muito o que fazer em termos reais para impedir a população humana de atingir o topo de pirâmide de 10 ou 12 bilhões. Precisamos olhar com seriedade para o que podemos fazer para conseguirmos todos viver confortavelmente e sem conflitos, tanto pessoais como coletivos. Nas gerações anteriores parecia suficiente desenvolver material e cientificamente e aumentar o nível de conhecimento do público geral, porém, agora, apesar destes enormes avanços, sabemos que nossas condições de vida e meio ambiente estão degenerando de forma perigosa.

 Nossa situação atual é cara e complicada demais porque estamos perdendo as energias positivas do meio ambiente e de nossas sociedades. Nós temos que aceitar isto e reconhecer a necessidade de desenvolver e integrar um novo aspecto da educação para nos ajudar a lidar com esta nova situação. Estou falando sobre a Educação Não-Formal. Ela é extremamente importante para nossas sociedades pois nós já criamos muita negatividade e sofrimento pessoais e coletivos de maneira não formal. Isto traz prejuízos a nós mesmos, à nossa sociedade e ao nosso planeta. O antídoto é a Educação Não-Formal.


O QUE É A EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL?


A Educação Não-Formal é algo muito distante da mente da maior parte das pessoas, então, gostaria de, primeiramente, explicar o que é a Educação Não-Formal. Estamos todos acostumados com a educação formal que nos ajuda a adquirir habilidades vocacionais e nos ensina a utilizar a parte lógica, racional, cognitiva e intelectual de nosso cérebro. Entretanto, não estamos familiarizados com a Educação Não-Formal. Ela nos ajuda a lidar  com os aspectos intuitivo, emocional, instintivo, artístico e subconsciente de nossa mente, os quais nos ajudam a desenvolver nossas habilidades sociais, interpessoais, psicológicas e emocionais. Enquanto o sistema formal de nos prepara muito bem para o mundo do trabalho, sua limitação é que não nos ensina a lidar com as emoções que surgem durante as situações de stress e crise, ou como unir os conceitos abstratos com a vida do dia-a-dia. Ao integrar a Educacão Não-Formal ao sistema formal de educação nós desenvolveremos harmoniosamente tanto o hemisfério direito como o esquerdo do cérebro. Esta integração gera indivíduos mais equilibrados e capazes de criar e manter a paz social e a harmonia em nossas cidades; pessoas interessadas em tomar conta do meio ambiente urbano e da natureza. A Educação-Não Formal é uma educação para a vida toda e não apenas algo que termina quando deixamos a escola.

Não há dúvida de que, no futuro, devido à intensa competição pelos recursos humanos como trabalho, dinheiro, habitação, comida, ar e água limpos entre os oito bilhões de habitantes das cidades, as causas externas de stress urbano aumentarão consideravelmente. Esta é a razão pela qual devemos começar a integrar já a Educação Não-Formal à escola formal e aos sistemas de educação vocacional. Ao fazermos isto as próximas gerações serão capazes de lidar com o fardo adicional do stress urbano e social de uma forma mais relaxada e pacífica.  Penso que a Educação Não-Formal é necessária já que nos proporciona a educação emocional que nos capacita a lidar com a vida moderna. Se seguirmos a Educação Não-Formal então nossas vidas serão menos caras nos níveis econômicos, energéticos e emocionais. Esta forma de educação emocional é algo de que as pessoas de todas as culturas e credos necessitam. Nas gerações anteriores estas idéias eram encontradas principalmente entre os ensinamentos religiosos. Portanto, seria apropriado experimentar e extrair a essência das boas idéias relativas à inteligência emocional, relações interpessoais, cura pela paz e cuidados ambientais que estão dentro de todas as religiões e tradições espirituais e apresentá-las à sociedade moderna como parte da Educação Não-Formal.

A Educação Não-Formal é importante em todos os estágios de nossa vida e de nosso desenvolvimento; no período da concepção, no ventre da mãe, ao longo dos anos escolares, do trabalho, quando estamos doentes ou sofrendo, na aposentadoria e no envelhecimento quando experimentamos o efeito da idade e por ocasião da morte. Ela é adequada a todos os diferentes grupos de nossa sociedade; os jovens, velhos, adolescentes, homens de negócio, doentes terminais, prisioneiros e outros – é útil para cada grupo de nossa sociedade. Além de outras necessidades todos precisam da Educação Não-Formal, pois ela ajuda a pacificar nossas emoções descontroladas e distúrbios psicológicos para que possamos funcionar de forma efetiva, pacífica e feliz em qualquer situação. Esta Educação nos oferece companhia positiva e uma perspectiva diferente assim como muitas soluções bonitas para nossas dificuldades.


NASCIMENTO

 A maneira pela qual nos comportamos afeta os nascituros emocional e energeticamente, portanto, precisamos iniciar a Educação Não-Formal no estágio pré-natal. Por exemplo, as crianças não planejadas podem perceber de uma forma muito sutil os sentimentos de rejeição dos pais mesmo estando no ventre e isto afeta seu desenvolvimento emocional e físico. Cientistas descobriram que a privação afetiva prejudica o desenvolvimento neurológico.


INFÂNCIA

Desde o início as crianças são educadas na escola dentro de uma cultura do medo. Muitas acham suas primeiras experiências escolares muito estressantes. Algumas coisas que para nós são naturais ou parecem necessárias causam muita ansiedade nas crianças, tais como o trânsito congestionado da manhã, alguns animais que encontram, os professores, o sentimento de ser gostado ou aceito pelas outras crianças, ser bem sucedidos academicamente e etc.. Estes fatores psicológicos de medo, agressão, sensação de ser vítima ou timidez, ser emocionalmente negligenciados pelos pais e outros sentimentos atrapalham bastante o desenvolvimento emocional da criança e se não forem remediadas podem produzir indivíduos alienados ou violentos.

A Educação Não-Formal pode ser efetivada de modo muito simples. Por exemplo, no início do dia escolar alguns minutos são dedicados a uma aula ou assembléia sobre a paz onde as crianças possam desenvolver, juntas, uma mente pacífica e uma boa motivação para o dia. Eu sugiro que todos, não importa a idade, tenham alguns momentos de paz de manhã. Um período quando simplesmente se relaxa e internaliza a idéia de não estar estressado ou amedrontado. Começar o dia de forma tão positiva ajuda a criança a estudar de modo muito mais efetivo e os adultos a lidar com o trabalho e o stress urbano. A Educação Não-Formal também pode lidar com a educação das crianças em áreas de problemas específicos, tais como lidar com a intimidação, discriminação, agressão, relações interpessoais, resolução de conflitos e outros.


IDADE ADULTA

As pressões para o sucesso em nossas sociedades provocam muita competição. Após muitos anos de escolaridade, quando terminamos a universidade nós já desenvolvemos muitos hábitos mentais de medo, competitividade e baixa auto-estima, assim terminamos vivendo traumas que diminuem nossas possibilidades e desenvolvimento.

Todo nosso estilo de vida urbano reflete estes tipos de problemas. Por exemplo, quando estamos administrando nossos negócios sempre temos bastante medo e bloqueios, isto nos causa muita perda de tempo e energia no trabalho. Eu sugiro que desenvolvamos muitos níveis diferentes de programas de educação para a paz, tanto a nível local como estadual. Isto não é só para crianças, é também para adultos. Claro, é muito importante que as crianças adquiram hábitos de paz quando são ainda pequenas, em sua formação, pois elas são os homens e mulheres das cidades de amanhã.   

O padrão usual é que as crianças recebem a educação formal preparando-as para a vida de trabalho e eles saem de casa para se tornar independentes geralmente entre os 20 e 30 anos. Entre a idade de 20 a 50 a maioria das pessoas vivencia algum tipo de prazer em suas vidas, mas depois disto começam a enfrentar muitos problemas para os quais a educação formal não os preparou, tais como  envelhecimento, doença, aposentadoria, solidão, morte e outros. Estes problemas serão maiores se a pessoa viver em ambientes urbanos densos, devido à falta de redes sociais tradicionais, stress, desemprego, competitividade e a alienação da vida urbana.

Em cada momento de nossas vidas normais ocupadas nossas mentes refletem muitas realidades emocionais e perceptuais diferentes. Por exemplo, nós podemos projetar uma atitude de muito medo e assim nos sentirmos muito ameaçados no trabalho ou podemos projetar agressão e, então, vivenciar a cidade como um lugar muito hostil. Devido as nossas crenças no reflexo externo de nossos próprios estados mentais negativos nós nos sentimos contrariados ou reagimos aos nossos amigos, familiares, colegas e mesmo estrangeiros de maneira imprópria. Se integrarmos a Educação Não-Formal à nossa vida diária ela realmente pode nos ajudar a identificar e transformar estas respostas emocionais negativas que poderiam, de outra maneira, destruir nossos relacionamentos, saúde, amigos ou capacidade de trabalho.

Sempre agimos com medo, estamos sempre subconscientemente amedrontados de perder nosso trabalho, ou que alguma coisa ruim nos aconteça. Isto se deve ao medo que internalizamos. No trabalho alguém sempre tem algum tipo de medo e stress, especialmente aqueles com maior responsabilidade financeira. De muitas maneiras nossas vidas, do nascimento à morte, são estressantes e desconfortáveis. Talvez isto se deva à falta de educação emocional e psicológica. Quando acordamos de manhã nós imediatamente pensamos no trabalho. Nós tomamos café e nos sentimos nervosos e estressados desde o despertar. Será muito melhor se, ao invés de mantermos esta reação automática estressada nós passarmos os primeiros minutos do dia desenvolvendo a mente positiva. Desta forma nosso dia inteiro e nosso trabalho se desenvolverão mais positivamente.

Atualmente a mentalidade das pessoas está mudando. Agora as pessoas não estão mais interessadas nos detalhes dos assuntos como estavam antes, as pessoas querem apenas a essência, o ponto principal, rapidamente. Por exemplo, na Internet vamos diretamente à questão, não temos que ler centenas de páginas sobre o assunto da paz Nós nos movemos depressa para uma forma de sociedade onde lidaremos apenas com a essência das coisas ao invés de nos atermos a todos os detalhes. Agora todos possuem sua própria visão de mundo, sua própria moralidade e não é possível dizer que isto está certo ou errado, precisamos aceitar o estilo de vida das outras pessoas. Mas, no mínimo todos podem concordar que precisamos tomar conta de uma moralidade principal, a interna. Nós estamos tentando trabalhar juntos para a união em torno de um conceito de paz. A Educação Não-Formal significa que todos nós tentaremos estar unidos nos séculos XXI e nos próximos. Penso que isto é vital se queremos que nossas cidades seja bem sucedidas no terceiro milênio.


DOENÇAS    

Quando adoecemos sentimos muito medo, stress e dor. A Educação Não-Formal nos ajuda a superar o stress mental e o sofrimento que ocorrem nestas dolorosas experiências físicas. Nosso corpo pode sofrer dor extrema, porém, a Educação Não-Formal ajuda-nos a aceitar esta situação e, assim, permanecemos alegres e otimistas. Isto significa que não experimentamos sofrimento mental ou depressão quando temos dor. Este fator é muito importante por acelerar o processo de cura ou, em caso de paciente terminal, aumentar o tempo de vida e melhorar as condições de sobrevivência.


APOSENTADORIA 

É natural que em dado momento de nossas vidas nosso trabalho termine, portanto é melhor encarar isto sem medo. Embora algumas pessoas anseiem por este momento muitas outras se sentem desprovidas de poder pois a maior parte de suas qualificações e  educação adquiridas e desenvolvidas ao longo de suas vidas se tornam irrelevantes. Para estes a aposentadoria significa passar o tempo com suas lembranças, assistindo televisão ou lendo jornais. Muitas pessoas idosas vivem sozinhas ou precisam viver em asilos uma vez que seus parentes não desejam cuidar deles. Isto lhes traz a sensação de que a vida fracassou e eles se tornam muitos sensíveis e facilmente traumatizados. A Educação Não-Formal deveria ser oferecida aos pensionistas para lhes propiciar a condição psicológica necessária para lidar com esta nova situação.


MORTE

Quando finalmente chegamos à morte, a Educação Não-Formal nos ajuda a morrer de forma relaxada e confortável. No momento da morte temos que abandonar todo nosso apoio emocional e material, precisamos mesmo  abandonar nosso corpo e fala. A única coisa que podemos carregar conosco durante e após a morte é nossa mente. Por esta razão, antes de enfrentarmos a morte nossa mente deve estar bem preparada e pacífica. Muitas pessoas em diferentes partes do mundo relataram que nas experiências de quase morte suas mentes se tornaram muito sensíveis às energias, barulhos e etc.Também descreveram muitas visões diferentes, positivas e negativas, que refletiam como tinham vivido suas vidas. A única coisa que os ajudara nesta situação era a sensação de paz interna. O coma também é semelhante às experiências de morte já que o corpo e a fala da pessoa estão paralisados, mas a mente, na verdade, se encontra em um estado muito sensível. Se oferecermos a um paciente em coma energia e informações pacíficas e positivas, nós o ajudaremos mesmo se ele aparentemente não responder.


PAZ INTERNA E NÃO-VIOLÊNCIA

Escrevi um livro chamado Mensageiro da Clara Luz da Lua da Paz Mundial, dando explicações mais detalhadas sobre o sistema da Educação Não-Formal. Temos que desenvolver um sentimento para a paz interna. É nossa luz interna, nossa companhia mais importante, o conhecimento mais indispensável, o maior poder. As pessoas atualmente têm um conceito errado sobre a paz - eles pensam que a paz nos torna fracos. Isto não é verdade, a paz, na verdade nos torna muito mais poderosos. Algumas pessoas acreditam que a paz só pode ser conseguida através da violência e da guerra, mas nós sabemos pelas experiências de nossas nações que isto traz apenas muito sofrimento e experiências violentas para muitas pessoas, sem resolver os problemas fundamentais. Deveríamos tentar a nova experiência de usar a paz como impedimento para a violência. Gandhi libertou a Índia da colonização pelo poder da paz. Se somos propensos à espiritualidade ou não, é irrelevante, todo mundo precisa de paz interna.

Acredito que a paz interna é a verdadeira base para a paz mundial, e que, para adquirir paz interna precisamos da Educação Não-Formal. Através dela podemos aumentar nosso amor, compaixão, paciência, equanimidade, bondade, paz interna e outros estados emocionais positivos que nos ajudam a lidar com situações difíceis e estressantes que confrontamos ao longo de toda nossa vida. Se desenvolvermos coletivamente estas atitudes nós não precisaremos mais fazer guerra com nossos compatriotas ou habitantes de outras nações.
A Educação Não-Formal pode desempenhar papel básico no desenvolvimento de idéias como ahimsa ou não-violência. Não violência ou paz interna é uma força extremamente necessária na criação da paz mundial e é poderosa o suficiente para parar todas as armas nucleares ou convencionais no mundo. Se pessoal ou coletivamente praticarmos paz interna asseguraremos o futuro do planeta e da sociedade humana. Penso que as Nações Unidas deveriam incrementar seu esforço pela Educação para a Paz, em colaboração com o Programa Escolar Associado  (Associated School Programme) da UNESCO em todo o mundo.


AS CAUSAS DA VIOLÊNCIA

Nestes dias, tanto nossas vidas emocionais como nossas cidades estão cheias de violência. Nós podemos ver os efeitos disto pessoal e socialmente na destruição de nosso meio ambiente. Por exemplo, persistimos na destruição de importantes habitats naturais como a Amazônia. Existem tanto causas externas como internas de violência. As causas externas de violência estão sendo tratadas pelos governos locais e nacionais, as Nações Unidas, as Organizações Não-Governamentais e agências. Eles tentam minorar as causas da violência oferecendo ajuda nas relações internacionais, cooperação econômica, social e técnica, desenvolvimento do terceiro mundo, proteção do meio ambiente, programas mundiais de alimentos, controle internacional de drogas, desenvolvimento de leis internacionais sobre os direitos humanos e assistência humanitária e em muitas outras áreas. Devemos nos alegrar por seus esforços maravilhosos e  estimulá-los a continuar este trabalho.

Entretanto, apesar de todos estes programas, se olharmos honestamente para nossa situação e a situação mundial o panorama em grandes áreas de nosso planeta se torna visivelmente pior. Isto me faz entender que lidar apenas com as causas externas de violência não é suficiente. Penso que também precisamos considerar o trabalho na área da Educação Não-Formal para lidar com as causas internas da violência. Por exemplo, embora seja muito importante sustar a fabricação e o uso de instrumentos de tortura e armas, também precisamos educar as pessoas para aprenderem a lidar com sua própria escuridão, tais como as emoções negativas do medo, violência, ódio e preconceito. Ao oferecer às pessoas este tipo de educação elas não terão justificativas para expressar emoções destrutivas contra seus compatriotas.

À medida que a população mundial aumenta, a maioria de nossas crianças crescerá em ambientes urbanos superlotados e sofrerão pressões muito diferentes daquelas com as quais lidamos atualmente. Pelo ano de 2025 a previsão é de que 2/3 da população mundial viverá em ambientes urbanos poluídos e, por causa disto, sofrerão grande stress psicológico. A Educação Não-Formal e especialmente a educação anti-violência se tornarão vitais na prevenção da difusão do crime urbano e distúrbios civis. Aumentar o poder da polícia e forças militares nunca será suficiente para lidar com estes problemas. Precisamos pensar agora sobre os efeitos que a educação da presente geração terá no futuro. Precisamos educar tanto os educadores como as crianças em valores da não-violência, cooperação social, amor, compaixão, paciência, tolerância, paz interna, sabedoria inteligente e etc.. Se pudermos criar uma atitude básica de não-violência nas mentes da próxima geração, então todas as atividades que precisarem para sustentar suas vidas, famílias, cidades e outras necessidades se desenvolverão de forma muito mais suave. Isto inclui as relações de trabalho, negócios, vida familiar, relações e outras. A Educação para a paz interna é um investimento a longo prazo para o futuro de nossas cidades.

Tenho viajado cerca de 80.000 km anualmente para aprender e ensinar a Educação Não-Formal, já que parece haver uma ausência global das habilidades emocionais que necessitamos para nos ajudar a arcar com os problemas da vida urbana moderna. As últimas gerações mudaram muito com o crescimento da industrialização. Antigamente as pessoas se sentiam satisfeitas com as próprias necessidades, porém agora precisamos de mais dinheiro e bens cada vez mais caros para sermos felizes. O dinheiro se tornou a religião do século XX,  mas viver nossas vidas desta forma não nos ajudou a resolver os problemas humanos fundamentais. Ao invés de nos tornar mais felizes parece que tudo se tornou mais caro e perigoso. Ao invés de nos tornarmos escravos de nosso dinheiro, necessitamos deixar o dinheiro trabalhar por nós.

Precisamos gerar equilíbrio ao tomar conta das diferentes necessidades dos cidadãos tanto nos mundo desenvolvido como em desenvolvimento. Os cidadãos dos países em desenvolvimento precisam basicamente de progresso economicamente sustentável, à medida que suas habilidades interpessoais, no total, são mais desenvolvidas. Os cidadãos dos países desenvolvidos embora tenham muito mais posses materiais externas precisam desenvolver suas habilidades psicológicas e interpessoais através da Educação Não-Formal. Espero que nos tornemos capazes de promover o desenvolvimento mundial tanto econômico como psicológico através de muitos métodos diferentes da Educação Não-Formal. Já há muitos sistemas e métodos da Educação Não-Formal dentro de cada cultura, todos eles baseados na promoção da paz interna. A Educação Não-Formal não é apenas para crianças e o futuro, paz é algo que precisamos desenvolver agora, especialmente aqueles entre nós que têm responsabilidades e poder de tomar decisões em benefício de outros cidadãos. Espero que no terceiro milênio sejamos capazes de fazer da paz o espírito da era.

Desde 1982 tenho trabalhado para desenvolver a Educação Não-Formal. Estas atividades têm acontecido de muitas formas diferentes e em diversas esferas da sociedade.  Além disto, tenho trabalhado para criar o Fórum Espiritual das Nações Unidas pela Paz Mundial. Este Fórum Espiritual propõe que se produza um espaço para que todas as tradições religiosas e espirituais possam partilhar idéias e pontos de vista de suas próprias tradições que poderiam ajudar a criar a Educação para a Paz Interna para desenvolver a paz mundial tanto pela educação formal como Não-Formal. Isto seria algo realmente útil para nossa sociedade urbana.

Junto com meu amigo Professor P. R. Trivedi do Indian Institute of Ecology and the Environment, com o objetivo de desenvolver um mundo e sociedade sustentáveis via Educação Não-Formal, estabelecemos em 1995 a Global Open University em Milão, Itália. A Global Open University é dedicada ao desenvolvimento da cooperação e coexistência pacíficas e treina  “educadores da paz” afim de criar algo positivo  para as futuras gerações. Na Eco 92 Boutos-Ghali disse: “O desenvolvimento não pode florescer sem a participação da população, o que requer direitos humanos e democracia. Também, o desenvolvimento não é mais apenas um assunto do política econômica. Fatos sociais, educacionais e ambientais também fazem parte dele. Sem desenvolvimento na mais ampla escala os jovens serão irrequietos, ressentidos e improdutivos”.

Em Milão, Itália, com a colaboração de amigos, em particular Dr. Franco Ceccarelli, criamos a Rádio da Paz, estação que transmite informação positiva (não política) ao público. Eles enfocam tópicos tais como cura natural, cuidados com o meio ambiente, não violência, direitos humanos e outros. Tem havido muito interesse positivo na Rádio da Paz, que agora se expandirá para Kathmandu, no Nepal e para a República Dominicana. A Rádio da Paz tenta contra atacar a “cultura de más notícias” em  nossas notícias e mídia de entretenimento que é muito prejudicial à nossa sociedade, especialmente às crianças que estão expostas à ela.Na  Rádio da Paz em Milão gostaríamos de retratar as Nações Unidas de forma positiva transmitindo informações positivas e notícias a respeito do trabalho das Nações Unidas e das Organizações Não Governamentais relacionadas a ela, tanto a nível nacional como internacional. Qualquer pessoa interessada em enviar informações à Rádio da Paz em Milão sobre as atividades de suas organizações, escritas ou gravadas, é bem-vinda. Nossa Rádio da Paz é um exemplo pequeno porém funcional. Espero que as Nações Unidas decidam criar a Rede de Vozes Unidas pela Paz (United Peace Voices Network)   de estações de rádio ao redor do mundo para espalhar notícias positivas e benéficas para todas as pessoas. Estou certo de que a Televisão da Paz também ajudaria a curar o psiquismo de milhares de cidadãos transformando, assim, nossas cidades em lugares  favoráveis e seguros para se viver. Se utilizarmos a mídia de forma positiva então o mundo inteiro poderá receber informações e mensagens positivas e construtivas muito rapidamente.

Passei um longo tempo promovendo métodos não-formais de cura física e psíquica baseados em antigas culturas orientais. Estas terapias tradicionais de cura foram reformuladas por mim para se adaptar ao povo moderno. Também tenho desenvolvido e promovido um método de relaxamento psicofísico chamado Autocura Tântrica. Este método se baseia na tradição do budismo Tibetano. É um método que pode nos ajudar , no nível energético, a lidar com nosso mundo subconsciente de emoções. Isto faz com que nossas emoções parem de irromper no nível consciente sob a forma de explosões emocionais violentas ou doenças físicas. A essência da Autocura é aprender a discriminar entre o que é verdadeiramente benéfico e o que é aparentemente benéfico para nós, nossa sociedade, cidades e meio ambiente. Muitos destes sistemas terapêuticos antigos foram considerados secretos, no passado, ou o conhecimento era transmitido apenas a poucas pessoas, de geração a geração.  Entretanto, considerando a atual deterioração de nossas cidades e as mentes dos cidadãos do mundo eu sinto que é importante pesquisar e partilhar globalmente os métodos de cura não-formais.

Para encontrar soluções para todos os problemas deste mundo nós precisamos integrar muitos métodos diferentes, como combinar o sistema formal de educação com a Educação Não-Formal, continuar e expandir os programas das Nações Unidas tais como os programas do Habitat sobre Administração Urbana e Cidades Sustentáveis para melhorar as condições de vida dos pobres. Mais de 600 milhões de moradores das cidades suportam, atualmente, condições de vida insalubres e ameaçadoras. Há muitas idéias antigas interessantes a respeito do planejamento urbano e administração das cidades que poderiam ser essencialmente úteis aos modernos arquitetos e planejadores de cidades, por exemplo o conceito de mandala e criação de espaços sagrados. Precisamos de cidadãos iluminados se queremos cidades melhores. O meio ambiente externo é um reflexo do nosso estado interno, isto é interdependência. Eu ficaria feliz em oferecer detalhes adicionais sobre o assunto se alguém estiver interessado.

Penso que se tomarmos muitas diferentes e conjugadas medidas psicológicas internas e externas e trabalharmos para reduzir a violência, então esta fusão de educação técnica e psicológica criará melhores ambientes urbanos do que os que tivemos até agora. Apesar da maciça expansão de nossas cidades nas duas próximas gerações nossos netos ainda serão capazes de experimentar nosso mundo como um lugar tolerável, cheio de esperança e paz para se viver.

Muito obrigado,

T.Y.S. LAMA GANGCHEN
LAMA TIBETANO CURADOR





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