Discutindo a Morte e a Vida após ela
Carta de Lama Michel à 2ª Sessão Plenária do “Fórum Mundial Permanente Espírito e Ciência da LBV”, realizado em Outubro de 2004 em Brasília/DF
Antes de mais nada, eu gostaria de agradecer o convite para participar desse congresso em que se falará sobre a morte e as condições pós-morte. Fiquei muito feliz quando soube que estavam organizando um congresso sobre um assunto tão importante, sobre o qual se fala muito pouco nos dias de hoje. Apesar de não poder comparecer pessoalmente, eu gostaria muito de usar a oportunidade deste convite para partilhar um pouco de minha experiência e de meu conhecimento.
Desde muito pequeno, de uma forma sutil, sempre esteve presente em minha mente a crença na reencarnação e na continuidade da vida depois da morte. Quando eu tinha quatro anos, uma pessoa de quem eu gostava muito, que era o meu dentista, faleceu. Sua morte me fez pensar muito; eu queria entender para onde ele tinha ido depois da morte, onde ele estaria naquele momento. Perguntei à minha mãe e ela me disse que ele estava no cemitério. Pedi-lhe que me levasse até lá. Fomos ao Cemitério da Consolação, onde meu bisavô está enterrado. A primeira coisa que reparei no cemitério foi o silêncio, do qual gostei muito. Paramos a caminhada em frente ao túmulo de meu bisavô. Ali, fiquei refletindo um pouco e, de repente, comentei com minha mãe: “Então, quer dizer que um dia nós dois vamos morrer e vamos ficar debaixo da terra e o seu avô vai estar vivo andando, como a gente agora, na frente dos nossos túmulos?
Essas idéias não tinham chegado até mim por influência familiar, pois nunca recebi uma educação que falasse em reencarnação, já que minha mãe é de família presbiteriana e meu pai, de família judia.
Sempre gostei de pensar sobre a morte. Mas nunca como algo que me fizesse sentir medo, e sim como um pensamento que me relembrava o valor de cada dia desta vida. Dizem que um verdadeiro budista deve lembrar da morte pelo menos uma vez por dia. Pessoalmente, faço isso com algumas perguntas.
A primeira coisa que me pergunto é: “Morrerei um dia ou não?” Essa pode parecer uma pergunta banal, óbvia, mas o fato de nos perguntarmos isso nos faz recordar com muita intensidade a certeza de que um dia morreremos. A maior parte de nós tem a tendência a não pensar na morte com sinceridade, ou seja, como algo que realmente vai nos acontecer mais cedo ou mais tarde. Por isso, quando nos perguntamos sinceramente se um dia morreremos, nos obrigamos a pensar de uma forma mais direta sobre o fato de nossa própria morte.
A segunda pergunta que sempre me faço é a seguinte: “Tenho a certeza de que um dia morrerei, mas sei quando isso vai acontecer?” Hoje tenho 23 anos. Ao me perguntar quando vou morrer, eu poderia imaginar, por exemplo, que provavelmente chegarei até os 50 anos. Porém, se eu me perguntar de forma realmente sincera se posso ter certeza de que chegarei até essa idade, a resposta será a de que, na verdade, não posso ter nenhuma certeza em relação a isso.
Mesmo tendo boa saúde e boas condições de vida, não posso realmente ter certeza de que chegarei aos 50 anos. O mesmo raciocínio é válido quando penso que talvez eu chegue até os 40, ou até os 30, ou 25... e, na verdade, não posso ter certeza nem de que chegarei aos 24. Isso nos mostra o quanto é incerto o momento de nossa própria morte. É muito importante nos lembrarmos disso, pois temos uma mente sutil que nos diz todos os dias: ‘não vou morrer hoje’.
A terceira pergunta que sempre me faço é uma pergunta muito importante: “Se eu morrer hoje, ou daqui a 10, 20, 50 anos, o que continuará? O que levarei comigo? O que deixarei neste mundo?”. E, por último, me questiono: “O que estou fazendo hoje para contribuir para o que vem depois da minha morte, ou seja, para a ‘minha próxima vida’?”
Todas as tradições espirituais e religiões acreditam em uma continuação depois da morte. Como essa continuação se dá, porém, é uma questão que cada sistema interpreta à seu modo. Mas o importante é que há essa crença em alguma forma de continuidade. Na cultura ocidental baseada no cristianismo, muitos usam a palavra ‘alma’ para se referir a essa continuação. No Budismo, a expressão que usamos é ‘contínuo mental’. É importante lembrar que a ‘alma’ou ‘contínuo mental’ não é algo que vamos encontrar no momento da morte, mas sim algo que já está conosco, que faz parte de nós, e que é a nossa verdadeira identidade.
Nos ensinamentos tradicionais do Budismo Tibetano, diz-se que a verdadeira prática espiritual é aquela que é feita para a próxima vida, e não para esta. Muitas pessoas no Ocidente interpretam erroneamente essa idéia como se significasse que nossa vida atual não tem nenhuma importância. Mas, na verdade, a expressão ‘esta vida’ se refere a todas as coisas que se referem apenas a esta vida, ou seja, que não poderão ir conosco no momento de nossa morte, como por exemplo, nossos bens materiais, o nosso corpo e a imagem que os outros têm de nós. Por isso, todas as ações que fizermos com a finalidade de desenvolver essas três coisas, mesmo que sejam meditações, preces etc, nunca constituirão uma prática espiritual. Uma prática espiritual são as nossas ações voltadas para o que sabemos que terá uma continuidade depois de nossa morte.
Acredito que o que vai de uma vida para a outra é o que chamamos de nossa mente sutil, ou emoções; são as atitudes internas que não precisam de preparação, que vêm de uma forma automática. Por exemplo, quem de nós tem que se preparar para sentir raiva? Ninguém. Quando a raiva vem, ela vem. Quem precisa se preparar para sentir amor? Essas atitudes mentais simplesmente vêm. O que levaremos sempre conosco, tanto nesta vida como no que vem depois dela, é aquilo que temos em nosso mundo interior: nosso coração, nossa alma, seja qual for o nome que usarmos para falar disso. Levaremos para a próxima vida as qualidades que desenvolvermos, como o amor, a compaixão, a generosidade, a sabedoria, o espaço interior, e todas as outras qualidades interiores. Mas também levaremos nossa raiva, apego, ciúmes, orgulho, avareza, ignorância, aversão, e tudo aquilo que chamamos de ‘nossos venenos mentais’.
Por isso, é também importante nos perguntarmos: ‘e se eu morrer agora, o que levarei comigo?’ Pessoalmente, sinto que fazer essa pergunta com sinceridade a mim mesmo é a melhor forma de avaliar meu próprio desenvolvimento espiritual. Devemos tentar viver de uma forma tal que possamos dizer a nós mesmos ao final de cada dia: ‘Tenho algo a mais de positivo que poderei levar comigo e algo a menos de negativo.’
Para entender melhor a continuação da vida depois da morte, devemos antes de tudo ter clareza sobre nossa própria identidade. Quando nos perguntamos quem somos verdadeiramente, ou ‘o que’ somos verdadeiramente, é muito difícil ter de imediato uma resposta clara, rápida e certa. Para saber onde estamos projetando nossa própria identidade, devemos observar onde estamos projetando nossa felicidade, pois o objetivo final da nossa identidade é ser feliz.
Se projetarmos nossa felicidade principalmente em nosso corpo, isso indica que teremos nossa identidade também projetada principalmente nele; o mesmo é válido com relação à maneira como lidamos com nossa imagem e com nossos bens materiais. Por isso, é muito importante projetar nossa felicidade, e assim também, nossa identidade, em algo que vá além do que se refere apenas a esta vida atual. Isso não quer dizer projetar nossa felicidade em algo que esteja além desta vida, mas sim em algo que está nesta vida, algo que a transcende.
Se examinarmos a morte, veremos que há nela três aspectos principais. Primeiro é seguro que ela ocorrerá, tanto para nós como para todos os demais. A única certeza que podemos ter depois que nascemos é a de que iremos morrer. O segundo aspecto é a incerteza sobre o momento da morte. E o terceiro aspecto é o mistério sobre o que vem depois da morte.
Normalmente, o que fazemos durante a vida? Sabemos que vamos morrer e, mesmo sem saber quando isso ocorrerá, agimos como se isso não tivesse a menor importância, como se fôssemos inconscientes dessa realidade. Por exemplo, é como se tivéssemos uma grande oportunidade de encontrar uma pessoa que nos é muito querida, e para quem gostaríamos de fazer perguntas muito importantes, mas quando a encontramos, falamos só sobre coisas sem nenhuma importância. Sabemos que teremos de nos separar dessa pessoa, mas não sabemos quando isso acontecerá; mesmo assim, nunca lhe fazemos as perguntas que deveríamos realmente fazer. Quando chega o momento de nos separar, percebemos perdemos tempo, e que nunca fizemos as perguntas que realmente que realmente importavam. Então, tentando falar tudo ao mesmo tempo, ‘atropelamos’ uma pergunta na outra, tentando nos comunicar no último momento.
Se não tomarmos consciência com sinceridade da nossa própria morte, correremos o risco de ter que lidar com ela apenas no momento em que ela chegar, quando então já será tarde demais.
Dessa forma, não usamos da maneira correta esse encontro muito precioso, deixando tudo para o último momento, em que não conseguimos realizar seu verdadeiro significado nem colher sua essência. Assim também esta vida que temos hoje e é extremamente preciosa. E nós sabemos disso, pois, de tudo que temos, é a ela que damos o valor maior. Esta vida é muito preciosa porque é através dela que poderemos realizar os nossos desejos, e nos prepararmos para a continuação desta vida e para as nossas próximas vidas.
Reconhecer a preciosidade desta vida e de nos lembrarmos disso, olhando para as possibilidades que ela nos oferece, é algo que deve nos trazer uma grande felicidade. Toda manhã, devemos gerar força interior com a felicidade que sentimos ao reconhecer a preciosidade desta vida.
Mas essa vida tão bela e com tantas possibilidades um dia acabará; por isso, devemos realizar nossos desejos e nos prepararmos para sua continuidade antes que isso aconteça. Como não sabemos quando esse momento virá, devemos viver cada dia dando o melhor de nós mesmos, tanto para o mundo no qual vivemos, como para as pessoas que nos circundam, e para o nosso próprio desenvolvimento interior.
Dizem que os grandes praticantes ou iogues temem sempre a morte, mas ficam felizes quando ela chega. Pois se preparam a cada dia para ela e, no momento em que ela chega, é uma grande oportunidade que eles têm para o próprio desenvolvimento interior. No momento da morte, nossa mente grosseira se dissolve em nossa mente sutil, que vai se direcionar para uma próxima vida. No momento dessa dissolução, ou seja, no momento da morte, será o último pensamento que tivermos que irá dimensionar nossa mente sutil. Se tivermos a consciência de reconhecer o processo dessa dissolução será possível entrarmos em contato direto com a nossa mente muito sutil, e, assim, purificar, ou fazer cessar nossos venenos mentais, e desenvolver nossas qualidades diretamente a partir dessa raiz.
Uma vez terminado esse processo de dissolução, nós nos encontramos no que chamamos de ‘bardo’, ou estado intermediário entre uma vida e outra, que pode durar no máximo 49 dias.
No final de cada uma das sete semanas, criamos uma nova possibilidade de renascimento, como se fosse uma pequena morte e um pequeno renascimento dentro do próprio bardo. Por incrível que pareça, nós mesmos escolhemos nosso renascimento, só que de uma forma involuntária. Isso acontece quando sentimos desejo pelo nosso futuro pai ou pela nossa futura mãe. Se sentirmos desejo pela nossa futura mãe, nasceremos como homem; se sentirmos desejo pelo nosso futuro pai, nasceremos como mulher. Esse desejo é gerado através das condições que criamos no momento da morte e das causas que criamos durante a vida. Se tivermos criado uma causa positiva no momento da morte, como, por exemplo, ter morrido com uma mente de amor, de compaixão ou de serenidade, isso abrirá as portas para as causas positivas que criamos no passado; assim, surgirão as condições para um próximo renascimento positivo. É dessa forma, portanto, ao sentirmos desejo pelos nossos próximos pais, que ‘escolhemos’ nosso próximo renascimento.
Por isso, é muito importante criar causas positivas no presente e uma condição positiva no momento da morte, ou seja, morrer com serenidade e com um estado mental positivo. Devemos nos lembrar sempre, é claro, que para a nossa próxima vida levaremos conosco as qualidades internas, positivas e negativas, que estamos transformando a cada momento.
Muitas vezes nos perguntamos: ‘Mas se existe reencarnação, por que não temos uma lembrança direta de nossas vidas passadas?’ Acredito que seja devido ao fato de que, durante nossa vida, mantemos contato principalmente - senão exclusivamente - com nossa mente grosseira, deixando a maioria das informações que recebemos em nossas mentes grosseiras, que, no momento da morte, se dissolverão e deixarão de existir.
Será possível escolher nosso renascimento de uma forma voluntária apenas no momento em que nos livrarmos das causas que nos fazem fazer essa escolha de forma involuntária, ou seja, quando tivermos abandonado os venenos mentais e as ações geradas por eles. Uma vez nos libertando completamente de nossos venenos mentais, teremos a plena liberdade de escolher onde e quando renascer. Mas os Bodhisattvas, os seres de grande compaixão, Seres Iluminados, que chegam a realizar isso, sempre escolhem voltar a renascer, mesmo tendo a opção de não ter que renascer neste mundo de sofrimento. Esses seres escolhem voltar para ajudar aqueles que ainda estão presos nas armadilhas do sofrimento.
As pessoas que têm sua identidade projetada de uma forma muito forte sobre seu corpo e sua imagem sofrem muito no momento da morte ao sentirem que agora não terão mais esse corpo e essa imagem. Por essa razão, se pudermos transcender essa identidade e reconhecer a nossa verdadeira identidade interior, o sofrimento da morte será muito menor.
No começo do bardo, ainda não entendemos que morremos, e isso também nos traz muito sofrimento. Com o passar do tempo, porém, acabamos por nos acostumar a essa nova condição. Durante o bardo, podemos atravessar qualquer tipo de obstáculo físico, a não ser lugares sagrados e a concepção da próxima vida. Dizem que no momento do bardo, algo que pode nos ajudar é lembrar de coisas positivas e principalmente lembrar de nosso caminho espiritual. Por isso, rezar para pessoas que estão no bardo é de grande beneficio, pois isso as atrai para o caminho espiritual.
Quando geramos ‘desejo’ pelo nosso próximo renascimento, no momento da concepção, é como se sofrêssemos um acidente de carro. Daquela grande liberdade de poder passar por todos os obstáculos, de repente nos encontramos presos em uma nova condição, uma nova vida. Nessa nova vida, inicialmente, também passamos pelo sofrimento de ter um corpo físico ao qual não estávamos mais acostumados.
Muitas vezes jornalistas me perguntaram: ‘Você acredita na reencarnação?”. Eu respondia: “Acredito”. E eles, então, diziam:“E se ela não existir?”. E eu respondia: “Melhor ainda”. O fato de acreditar na reencarnação, ou seja, em uma continuação depois da morte que depende de como vivo minha vida no presente, faz com que eu tenha uma vida melhor. Pois desenvolver nossas qualidades internas, diminuir nossos venenos mentais e desenvolver uma identidade mais profunda são atitudes que nos ajudam tanto nesta vida como nas próximas, caso elas realmente ocorram.
Não devemos olhar para a morte e pensar nela uma forma triste e mórbida, mas sim como quem observa e se recorda de uma realidade que teremos que enfrentar. Além disso, devemos nos regozijar com nossa capacidade de reconhecer esse fato, pois, dessa forma, podemos nos preparar desde agora, tornando-nos a cada dia mais preparados, fortes e seguros. É importante também nunca perdermos a grande felicidade desta vida, lembrando sempre que, se vivermos de uma forma positiva e correta, a continuação depois dela também será bela e cheia de alegria.
Agradeço muito a atenção de todos, e espero que essas poucas palavras, que não são nada mais do que minha forma de compartilhar um pouco das idéias nas quais acredito e que me trazem benefício, possam ser de benefício também para cada um de vocês.
Se alguém sentir que alguma coisa do que eu disse lhe foi de beneficio, a única coisa que eu gostaria de pedir é que coloque isso em prática. Hoje é o futuro de ontem e o passado de amanhã; por isso, se quisermos realizar qualquer coisa nesta vida, devemos colocar esforço nessa direção hoje mesmo, e não amanhã.
Mais uma vez, agradeço pela oportunidade de estar aqui com vocês, mesmo que de uma forma indireta, e espero poder em uma próxima oportunidade compartilhar mais algumas palavras com todos olhando diretamente nos olhos de cada um.
Lama Michel Rinpoche – Albagnano, Itália, 20 de outubro de 2004.









