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"A paz interna é a base mais sólida para a paz mundial" T.Y.S. Lama Gangchen

Antes de Adeus - trecho da matéria de Claudio Julio Tognolli, publicada pela revista Galileu - julho 2008

A morte é uma experiência humana universal. Questões sobre o seu significado e o que acontece quando morremos são preocupações centrais em todas as culturas desde tempos imemoriais. Diante dela, o ser humano coloca-se frente a questões essenciais. Morrer bem, ter uma morte tranqüila, bem assistida, com amparo médico, social, familiar - tudo isso faz parte do processo educativo para a morte. Trata-se de educar a sociedade para cercar o ato de morrer dos melhores cuidados possíveis. Mas a educação para a morte vai além, porque toca em todos os aspectos interdisciplinares antes mencionados e deveria começar desde as primeiras fases da infância, constituindo um elemento da educação das novas gerações......

Lama Michel e Bel César

Antes do Adeus

Claudio Julio Tognolli 

 

............A tendência de humanizar a morte e dar ao paciente capacidades plurais de rever sua situação tem outros pontos de excelência no Brasil em iniciativas ligadas ao budismo, em especial no Centro de Dharma da Paz, em São Paulo, criado pela terapeuta Bel César. Formada em psicologia clínica e em musicoterapia no Instituto Orff, em Salzburgo, na Áustria, ela escreveu cinco livros sobre filosofia budista tibetana e é conhecida internacionalmente pelo trato de pacientes terminais. "Ninguém muda, jamais, porque está diante da morte. O que muda é o desejo de mudar, a pessoa amadurece no confronto com desafios. A chave está no desejo de mudar", diz Bel (leia entrevista com a terapeuta no quadro "A morte é um despertador para o significado da vida").

 

"A MORTE É UM DESPERTADOR PARA O SIGNIFICADO DA VIDA"
Bel César acompanha pacientes terminais utilizando fundamentos filosóficos do budismo tibetano

 

Autora de cinco livros sobre budismo, a psicóloga Bel César presidiu por 16 anos Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog. Sua seriedade no budismo tibetano fez dela a latino-americana mais próxima do lama Gangchen Rinpoche, que trouxe ao Brasil em 1987. Desde 1992, Bel tem acompanhado de perto seis pacientes terminais a cada ano. Ela é mãe do lama Michel Rinpoche, que, aos 12 anos e por decisão própria, retirou-se ao monastério de Sera Me, na Índia, onde dedica-se aos estudos do budismo tibetano.

Galileu: Você diz que ninguém muda diante da morte. E afirma que o que muda "é o desejo de mudar". Como potencializar esse desejo de mudança num paciente terminal?
Bel César:
Lama Guelek Rinpoche disse certa vez que podemos nos preparar para a morte assim como quem se prepara para uma viagem. Se fizermos isso com antecedência, teremos mais chance de lembrar de tudo o que queremos levar. Depois disse: "Quando eu for, não quero ir com raiva, insatisfação, apego ou arrependimento. Eu quero ir como um pássaro que levanta vôo do topo de uma montanha. Quero ir como um espírito livre". Ou seja, o sentido da vida é sair mais leve do que se entrou. Para potencializar esse desejo de mudança, podemos cultivar posturas internas saudáveis. Aqueles que desenvolveram qualidades internas como generosidade, paciência e gratidão em vida saberão melhor como atender suas necessidades emocionais diante da morte. Ela é como a vida: um constante aprendizado de deixar o ressentimento do passado e mover-se para a evolução no futuro. É preciso ter familiaridade com a sensação de uma continuidade positiva. Temos de saber que acumulamos causas positivas e, portanto, teremos efeitos positivos. Uma tarefa para a vida inteira. O budismo nos fala que na hora da morte "devemos prolongar os resultados do bom karma", isto é, focar nossa mente onde acumulamos méritos. Também é fundamental dar um sentido para a sua morte.

Galileu: Relate o caso de Dona Nora, uma senhora de 85 anos que você acompanhou até o final de seus dias.
Bel:
Acompanhar Dona Nora foi inesquecível. Já idosa e querida por todos, era uma católica praticante, mas lhe faltava passar por uma compreensão que está além do racional. Um dia, ouvi a clássica pergunta: "O que acontece depois da morte?". Respondi: "Tudo que eu disser pouco vai ajudar se você não estiver se sentindo confiante sobre sua capacidade de entrega. Vamos fazer uma coisa. Feche os olhos e se imagine em um lindo jardim, passeando de mãos dadas com Jesus. É o jardim das quatro estações. Primeiro vocês visitam a primavera. Você diz para Jesus olhar as borboletas e Ele lhe mostra os botões das flores se abrindo..." Dona Nora e Jesus chegaram ao jardim do inverno, onde sentaram-se para descansar sob um grande carvalho sem folhas. O chão estava frio. Em silêncio, eles fecharam os olhos. Dona Nora deitou-se no ombro de Jesus e então Ele lhe disse: "Nora, você sente quanta vida há debaixo da terra pronta para nascer?". Neste momento, ela abriu seus olhos e me olhou emocionada. Apenas disse: "Entendi, Bel, entendi".

Galileu: Fale sobre a pós-adolescente que "clonou" um tumor da própria mãe.
Bel:
Acompanhei Marina, uma linda garota de 19 anos que morreu do mesmo câncer que vitimara sua mãe seis meses antes. Ela expressou sua personalidade vibrante e determinada ao estabelecer o momento em que seria sedada. Senti nela o prumo de quem tem a confiança de estar familiarizada consigo mesma. Durante nossos encontros, enquanto ela ainda estava consciente, apesar de não conseguir mais falar, trocamos olhares e eu pude lhe dizer frases inspiradas pela energia calma que ela própria emanava: "Quem sabe lidar com a solidão sabe que tudo está interligado. Portanto, não existem separações, apenas um modo diferente de viver cada momento". Nesse instante, seu pai comentou que ela tinha viajado, aos 16 anos, sozinha, durante vinte dias, pelas praias de Santa Catarina. No dia seguinte, ela escreveu para seu pai e sua irmã: "Estou indo, mas vou cuidar de vocês". Não havia solidão em sua mensagem. Ela confiava na certeza de que se manteria ligada àqueles que amava.

Galileu: Para que o paciente terminal encare bem sua passagem, é necessário que acredite em reencarnação?
Bel:
Não. Procuro ajudar os pacientes terminais a superar o medo da separação que surge diante da morte. Criamos situações em que eles possam relaxar até sentirem-se tocados pela sensação de que algo continua. Particularmente, não me envolvo com as possíveis versões que cada religião propõe para esse momento. Acredito que o importante é a pessoa sentir-se confiante em seu estado de entrega. Para tanto, procuro entrar no mundo da pessoa e me sintonizar com uma imagem arquetípica que possa lhe ajudar. Exercícios de visualização, acompanhados da música certa, são ferramentas de grande ajuda.

Galileu: O que é a morte?
Bel:
A morte é um despertador que quer nos acordar para o significado da vida a todo momento.

 

veja a matéria na íntegra no site

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG84038-7855-204-1,00-ANTES+DO+ADEUS.html

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